Doors closed to us
Posted on 06. Nov, 2009 by Juliana Russar in Brazil, Video
Com a porta na cara
Visto que as negociações se aproximam de Copenhague, os temas vão ficando mais delicados e as discussões mais acaloradas e interessantes. Infelizmente, tudo está acontecendo em salas com as portas fechadas para os observadores. Buscando trazer um pouco de humor para esse momento tão tenso, eu, que após uma curtíssima temporada diante das câmeras, resolvi encarar novos desafios e agora estou atrás das câmeras, e o tracker alemão gravamos esse vídeo falando sobre a situação:
Aqui em Barcelona, fui credenciada com o crachá amarelo, ou seja, como organização não-governamental e terei a mesma identificação em Copenhague. Dessa forma, não tenho mais o privilégio de entrar nos encontros exclusivos para países-parte (party) da Convenção de Clima. Fiquei um pouco chateada ao saber disso e ainda estou um pouco, mas é compreensível que uma pessoa de 24 anos que não parece do governo e, ainda por cima, usa uma camiseta vermelha não muito discreta escrita “negotiator tracker”, não vá passar despercebida dentro de uma sala onde supostamente apenas negociadores deveriam estar. Deixo claro, no entanto, que de maneira alguma isso prejudicou meu trabalho ou meu relacionamento com os negociadores brasileiros. Falando nisso, até agora não consegui encontrar com o chefe da delegação brasileira, o Embaixador Figueiredo. Ele chegou aqui ontem (quarta-feira), porque participou (ainda bem) da reunião em Brasília com o presidente Lula e ministros para defender posição brasileira para a CoP-15 (ainda estou digerindo o que aconteceu nessa reunião, tentando entender como é possível desvincular a política interna de um país da sua política externa…preciso pesquisar mais sobre esquizofrenia). Hoje, o Emb. Figueiredo marcou e desmarcou três vezes uma reunião com organizações da sociedade civil do Brasil, da qual eu participaria, mas acabou não dando certo, o que comprova mais ainda que tem muita coisa acontecendo lá dentro.
O clima desse centro de convenções não é muito bom: estamos confinados em um galpão gigante, sem luz natural, à base de café, croissants e sanduíches prontos. Sem falar na péssima conexão de internet, na falta de mesas para usar o computador e ausência de tomadas para carregar a bateria dos computadores (ninguém ainda conseguiu encontrar uma alternativa para isso…). Somando o fato das pessoas estarem dentro de um caixote de concreto, mal (ou semi)-alimentadas, todas elas (ou pelo menos as que se importam), estão cada vez mais sentindo a pressão, que só deve aumentar até Copenhague. Posso falar isso por mim e pelos meus colegas: em Bangkok, o clima era completamente diferente, agora, todos se sentem esgotados. Aqui nesse universo paralelo das reuniões da Convenção de Clima, o tempo passa muito rápido e parar para comer, tomar banho, dormir parece ser uma perda de tempo.
Fico pensando nas pessoas que realmente estão tomando decisões nesse processo e no nível de pressão ao qual serão submetidos em Copenhague e como elas vão lidar com acontecimentos inesperados (como, por exemplo, o bloqueio dos países africanos no começo da semana em Barcelona). Está claro que vão ter que trabalhar sem ter hora para terminar. Como disse em outro post, agora é o momento para esforços sobre-humanos. Todas as pessoas envolvidas nesse processo são seres humanos comuns como todos, assim só posso acreditar que a energia vem da vontade de realmente poder fazer a diferença e ajudar com o que puder para o bom resultado dessas negociações.
A estratégia aqui é baixar as expectativas para Copenhague, falando que agora é realista esperar APENAS uma declaração política forte da CoP-15, que abra caminho para as negociações na CoP-16 (parece que será no México) e não um acordo internacional que tenha força de lei. Isso é realmente grave, porque, na prática, declarações políticas não tem nenhum valor, cartas de intenção não são mais suficientes. A hora do comprometimento chegou (como li em algum lugar: “já namoraram bastante, está na hora de casar”). As negociações de clima não podem seguir o mesmo caminho das negociações sobre comércio no âmbito da OMC, que chegaram num impasse tão grande, que não avançam faz tempo e quase mais ninguém fala sobre isso. ESSE PROCESSO NÃO PODE SER ENTERRADO!
Apesar de ser difícil às vezes manter o otimismo diante de todo esse quadro, vou terminar com as palavras do secretário-executivo da Convenção de Clima, Yvo de Boer: “nós não estamos falando para vocês desistam do que defenderam até agora”. Não vamos desistir mesmo!
Juliana
P.S.: Nossos vídeos podem ser facilmente encontrados aqui.
The Adopter - Juliana Russar
Juliana tem 24 anos. Ela mora em São Paulo e eu sempre foi apaixonada por política internacional e desenvolvimento. Não por acaso, ela se formou em Relações Internacionais e fez especialização em Meio Ambiente. Desde 2007, ela tem acompanhado as negociações internacionais sobre mudanças climáticas ... leia mais»
The adopted - Meet Figueiredo and the Brazilian Delegation
Juliana está seguindo Luiz Alberto Figueiredo Machado, diplomata, diretor do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores. Figueiredo lidera uma equipe de negociadores do Ministério das Relações Exteriores, Ministério de Ciência e Tecnologia e Ministério do Meio Ambiente. leia mais»








One Response to “Doors closed to us”