Cadê os números?

 

E olha que nem vou falar sobre a falta de dinheiro no Fundo Verde Climático...

Há quatro anos, na Indonésia, os negociadores representantes dos países participantes da Convenção de Clima da ONU lançaram o Plano de Ação de Bali, dando início a uma rodada de negociação que deveria ter terminado em 2009, na CoP-15, com um acordo ambicioso, justo e com força de lei.

Essa ambição se traduziria em uma meta de redução de gases de efeito estufa que possibilitasse que o aumento da temperatura média do planeta fosse inferior a 2ºC em relação aos níveis pré-Revolução Industrial e, de acordo com o Quarto Relatório de Avaliação do IPCC publicado justamente no ano da CoP-13 (2007) e o mais atual até o momento (o próximo deve ser em 2013 ou 2014),  os países desenvolvidos deveriam reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 25-40% até 2020 com relação aos níveis de 1990 e até 2050 a redução global de emissões deveria ser de no mínimo 80%. Além disso, as emissões globais deveriam atingir seu pico em 2015 para que fosse possível reduzir as emissões de maneira realista para atingir o objetivo da Convenção, ou seja:

a estabilização das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema climático. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-se naturalmente à mudança do clima, que assegure que a produção de alimentos não seja ameaçada e que permita ao desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável.

Entre 2007 e 2009, esses números e data considerados ambiciosos estavam na boca da maioria das pessoas que circulavam pelos centros de convenção pelo mundo onde aconteceram intensas sessões de negociação pré-Copenhague.

Aí, veio a CoP-15 e o Acordo de Copenhague, que em um primeiro momento não foi aceito como um texto legítimo da Convenção de Clima. A partir dele, os países puderem submeter voluntariamente e sem nenhuma obrigação internacional os esforços de redução de emissão que estavam dispostos a assumir. Está no Acordo de Copenhague, então, que o Brasil se compromete a reduzir entre 36,1% a 38,9% de suas emissões futuras até 2020, que a China vai reduzir entre 40-45% sua intensidade de carbono até 2020 (quantidade de carbono necessária para produzir uma unidade do PIB), que os Estados Unidos vão reduzir 17% das emissões (ano base: 2005 e não 1990) até 2020 e que a União Europeia se compromete a reduzir entre 20 a 30% das suas emissões até 2020.

Os Acordos de Cancun incorporaram o Acordo de Copenhague nas negociações e reconhecem na parte dedicada à visão compartilhada para ação cooperativa de longo prazo (um dos pilares do Plano de Ação de Bali) que o aumento da temperatura média da Terra tem que ficar abaixo dos 2ºC e que os países têm que implementar ações imediatas urgentes para atingir esse objetivo, levando em conta a ciência e princípios de equidade (contribuição histórica de emissões, capacidade de reduzir emissões). Também diz que uma revisão dessa meta tem que ser feita a partir dos mais recentes estudos científicos, que uma meta global de redução de emissões até 2050 tem que ser acordada, assim como uma data limite para que as emissões de gases de efeito estufa atinjam seu pico, com base também na ciência e no acesso igualitário ao desenvolvimento sustentável.

Mais um ano se passou e cada vez menos esses números ocupam o centro das discussões. As negociações não avançam! Os Estados Unidos alegam que não há razão para assumir mais compromissos até 2020 se já está comprometido com o Acordo de Copenhague, União Europeia não aumenta sua meta para 30%, Brasil e China jogam para o pós-2020 o comprometimento com metas de redução de emissão. Hoje foi publicado o novo texto do trilho de negociação que fala sobre ação cooperativa de longo prazo e todas as partes sensíveis que mencionam o ano-pico das emissões, meta de redução dos países desenvolvidos até 2020 e meta global de redução de emissões até 2050 permanecem entre colchetes, ou seja, não há consenso.

Apesar dos países já terem se comprometido em estabilizar a concentração de carbono na atmosfera em uma quantidade que impeça um aumento de temperatura maior que 2ºC com a decisão da CoP-16 (Acordo de Cancun), as promessas individuais de cada país, principalmente dos países desenvolvidos, não batem com esse objetivo e estamos caminhando para um planeta entre 2,9-4,4ºC mais quente.

Recomendo a leitura do artigo “A lógica brutal das mudanças climáticas” publicado no portal Grist que explica o que significa jogarmos para escanteio esses importantes números. O artigo está em inglês, pode ser traduzido com o Google Translator e os gráficos são muito interessantes.

  • ceruru

    jubs

    parabens! por nos colocar estes dados……….

    comentário: 
    teoricamente os  maiores interessados em colocar “money” para o sucesso destas negocações seriam os  usa , pelo exposto são os que mais colocam obstáculos ,pq?
    este ano 2011 foi batido o recorde de catastrofes  causados por fenomenos provenientes  de mudanças climáticas  11 (onze) o recorde anterior foi em 2009, 08(oito) nas quais,o governo americano em cada uma delas gastou no minimo 01 (um) bilhão de us$ .
    fica aí a pergunta,pq ?
    fonte:luis megalli, band news hoje
    ricardo boechat a seguir considerou “fracassadíssima” cop 17
    ceruru