Para além das aparências, uma COP emocionante

Pôr-do-sol em Doha. Uma vista pouco comum para quem se fechava nas salas congelantes do centro de conferência, mas um alento aos olhos e à alma.

Passados apenas poucos dias do fim da COP, paro para refletir sobre o que a 18a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima trouxe de concreto. Imagino que todas as 17 mil pessoas que atenderam à reunião este ano devam fazer o mesmo. Afinal, é necessário certo tempo depois para digerir tudo que foi processado e assimilado durante as mais de duas semanas na cidade desértica de Doha, no Qatar.

Na avaliação brasileira, até que a COP-18 não foi de todo ruim. Para uma conferência que começou quase sem expectativa nenhuma, ela trouxe uma das maiores conquistas para o sistema da ONU: a extensão do famoso Protocolo de Kyoto. Mesmo não sendo cumprido por muitas das nações signatárias, o tratado continua sendo o principal instrumento internacional para redução de emissões de gases-estufa por parte de países desenvolvidos.

A decisão de levar o acordo para um segundo período valida duas décadas de esforços diplomáticos sobre o que é hoje o único sistema legalmente vinculante que determina metas obrigatórias para diminuição do aquecimento global. Como principal objetivo da delegação nacional na conferência, podemos dizer que foi uma conquista com gostinho especial para o Brasil, já que o embaixador Luiz Alberto Figueiredo foi encarregado de fechar o assunto junto às demais nações.

Passamos mais de 10h na plenária final esperando algum resultado, que só veio nas horas tardias do último sábado. Com direito a piadas infames por parte do presidente da COP, Abdullah al-Attiyah, presenciamos no plenário uma digna cena de comédia circense. O presidente era o bufão, que animava os ânimos dos mais de 200 diplomatas e “observadores” exaustos que conseguiam se manter acordados. Outros tantos viam-se jogados às traças nas desconfortáveis cadeiras ou nos carpetes já desgastados do centro de conferência.

Depois de severa resistência da Rússia, que bloqueou as negociações por quase 48h, os representantes de mais de 190 países reunidos em Doha finalmente aprovaram a segunda fase de Kyoto, que agora tem validade até 2020. Mas enquanto o tratado foi celebrado como o sucesso da conferência, as demais esferas que estavam sendo discutidas não agradaram à maioria das delegações.

Os resultados dentro das Ações Cooperativas de Longo-prazo (LCA, na sigla em inglês) foram insatisfatórios, com poucos compromissos financeiros sendo anunciados, aumentando a lacuna de ajuda aos países mais comprometidos pelas mudanças climáticas.

Em discurso, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, disse que “falta disposição do outro lado da mesa”. “Os países do Anexo 1 estão gradualmente fugindo de seus compromissos, não estão tomando a liderança, não estão dando suporte aos países em desenvolvimento para ações de mitigação e adaptação. Sua falta de ambição é inegável. E isso, Mr. Chair, é inaceitável”, sentenciou.

Mas voltando à minha casa, em Brasília, quase um deserto como Doha, onde o clima político se apropria da cidade, penso no que de fato essa COP trouxe, para além das siglas e nomenclaturas indecifráveis da diplomacia internacional; para a Nathália pessoa. Me perco em devaneios lembrando de tudo que vivi nesse pouco tempo. Concluo que se essa COP não trouxe nada dos resultados concretos que o mundo esperava, para mim ela valeu muito a pena.

Vi um dos países islâmicos mais conservadores tolerar e recepcionar pessoas das mais variadas nacionalidades, culturas e credos. Vi mulheres de cabelos e pernas de fora convivendo com homens e mulheres cobertos dos pés à cabeça. Vi protestos silenciosos e músicas de apelo cantadas aos berros como desabafo.

Vi os países do Golfo fazendo história com a primeira marcha climática autorizada pelo governo; ao mesmo tempo, vi dois ativistas do recém-criado Movimento da Juventude Árabe pelo Clima sendo expulsos do centro de conferência e deportados do Qatar por segurar um banner que cobrava liderança de seus governos.

Vi um cético seqüestrar o microfone de uma das delegações e pedir uma revisão da ciência do clima; foi seguido de vaias na sala, com direito a negociadores indignados expressando a vontade de que ele fosse banido da COP. Enquanto isso, o chefe da delegação das Filipinas chorava no outro plenário porque o furacão Bopha devastou o sul de seu país deixando mortos, desabrigados e desaparecidos.

Posso dizer que vi muitas contradições nessa conferência, mas essa foi de longe a maior delas. Saber que enquanto o meio ambiente se revolta contra nós, ainda há quem leve tudo como se fosse uma mera agenda politico-econômica a ser riscada da lista de compromissos.

De todas as emoções que vivi na COP-18, a reação do negociador filipino foi a mais sincera e genuína que eu tive o prazer de compartilhar. Chega a dar saudade de Doha. Para além da aparência sisuda e infértil do centro de conferência e seus personagens, guardarei a minha primeira COP na lembrança junto com um sentimento de gratidão pelo inconteste e imensurável aprendizado.

  • http://www.facebook.com/diegolobog Diêgo Lôbo

    É isso aí, Nathalia! Acho que são essas pequenas ações que acabam nos dando forças para continuar. Valeu pelo cobertura super bacana! Parabéns.

  • http://twitter.com/clarknath Nathalia Perry Clark

    Obrigada, Diêgo! Valeu por ter acompanhado os posts desde o início, e pelo incentivo nos comentários! Seguimos na luta! :)

  • http://twitter.com/clarknath Nathalia Perry Clark

    Obrigada, Diêgo! Valeu por ter acompanhado os posts desde o início, e pelo incentivo e apoio nos comentários! Segimos na mesma luta. :)