Thursday, 2nd September 2010

Roubando a cena

Posted on 11. Jun, 2010 by Juliana Russar in Brazil | View Comments

Como podem imaginar, até mesmo nas negociações de clima da ONU, o assunto do dia foi o início da Copa do Mundo. As reuniões de encerramento do AWG-LCA (Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Ação de Cooperação de Longo Prazo) e do AWG-KP (Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Novos Compromissos para Países do Anexo I do Protocolo de Quioto) foram programadas para terminar às 13h, de modo que todos pudessem assistir o jogo de abertura da Copa, México X África do Sul, coincidentemente os anfitriões da CoP-16 (2010) e CoP-17 (2011), marcado para as 16h. A sessão do LCA começou atrasada e muito tumultuada por causa de um incidente envolvendo a  Arábia Saudita. Parece que alguém tirou uma foto ofensiva com a placa do país e mandou para a delegação saudita. Todos os países resolveram se pronunciar condenando o fato, até mesmo países como a China, que não sabia o que tinha acontecido mas mesmo assim pediu a palavra para manifestar apoio à Arábia Saudita, afinal, se podemos sair do foco do real motivo para estarmos aqui, por que não fazê-lo?  Até que todos se declarassem sobre o fato, passou uma hora. Finalmente, os países começaram a se manifestar a respeito do novo texto para facilitar as negociações apresentado pela chair do grupo, no fim da noite de quinta-feira. A expectativa era grande para ver quais seriam as reações dos países, mas logo de início o G-77+China se manifestou contra o texto. Logo em seguida, a chair teve que interromper a sessão novamente porque os tradutores tinham que fazer um intervalo de 90 minutos. México e África do Sul não queriam de jeito nenhum que a sessão fosse interrompida (então por que deixaram a sessão começar com atraso?) porque isso significaria que teriam que trabalhar durante o jogo, o que acabou acontecendo. Retomada a reunião, após o descanso dos intérpretes, os países em desenvolvimento condenaram o trabalho conduzido pela chair, falando que o texto não estava equilibrado, não atendia as demandas do G77 e que parecia que a chair tinha feito um texto para ela negociar com os países-parte da Convenção, e não que tinha produzido um texto para os países-parte negociarem entre si. A Bolívia até mesmo falou que o texto era um “Acordo de Copenhague Plus”. No fim das contas, não se chegou a um consenso, mais uma vez, sobre um texto. A chair vai apresentar um novo texto para a próxima sessão, que também acontecerá em Bonn, entre 2 e 6 de agosto. O Brasil declarou que quer, o mais rápido possível, entrar em modo de negociação com um texto para ser negociado linha por linha. Mas, para que isso aconteça, precisamos do texto, claro. E de foco. E de vontade política.

Vejam abaixo algumas fotos de hoje!

Esse é meu último post direto de Bonn. Obrigada por me acompanharem!

Juliana

P.S.: Fui sorteada em primeiro lugar pelo Oráculo do Acordo Climático, que mencionei em um dos meus posts dessa semana. Ganhei um lindo urso panda de pelúcia, que é o símbolo do WWF, e está sendo cobiçado por muita gente. Respondi duas perguntas para o Oráculo: “quando você acha que vamos finalmente ter um acordo climático?” e “quando você acha que deveríamos ter um acordo climático?” Respondi 2011 e 2009. Espero que o Oráculo me ouça!

Sobre sabotagem e procrastinação

Posted on 10. Jun, 2010 by Juliana Russar in Brazil | View Comments

Quem chegava hoje de manhã no hotel Maritim, onde acontecem as negociações de clima, era recebido por ativistas segurando uma faixa onde estava escrito “bonn polluters” (poluidores de Bonn) e distribuindo um adesivo escrito “bonn procrastination” (procrastinação de Bonn), fazendo clara referência à British Petroleum (BP). Por ser a petrolífera responsável pela mais recente catástrofe ambiental envolvendo vazamento de petróleo, após a explosão e afundamento de uma de suas plataformas localizadas no Golfo do México, a empresa foi escolhida para evidenciar a atuação do setor petrolífero nas negociações da Convenção Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Desde o início, lobistas do setor circulam pelos corredores, evitando chamar atenção, e tem como porta-vozes os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que frequentemente sabotam um possível acordo. Dessa vez, não foi diferente.

Ontem, durante a reunião de encerramento do órgão da Convenção responsável por prestar assistência científica e tecnológica (SBSTA), não foi possível atingir consenso sobre o item 9 da agenda, que trata dos aspectos cientifícos, tecnológicos e socioeconômicos da mitigação das mudanças climáticas. Os pequenos países insulares (AOSIS), com o apoio dos países menos desenvolvidos (LDCs) e União Europeia, entre outros (Austrália, Noruega, África do Sul), propuseram solicitar ao secretariado preparar um documento técnico sobre as opções para limitar o aumento médio da temperatura global em 1,5 e 2 graus centígrados.

A Arábia Saudita, apoiada pelo Kuwait, Qatar e Venezuela (pois é, nesse momento, o país esqueceu sua solidariedade com os países mais vulneráveis e vítimas dos capitalistas do Norte e lembrou que grande parte das receitas do seu PIB vem do petróleo), declarou-se contra a elaboração desse relatório, chegando até a sugerir que os países usassem o Google para saber mais sobre o assunto. Essa posição dos países da OPEP causou grande desconforto dentro do G77 (aliás, não entendo como um bloco que representa quase todos os países em desenvolvimento do planeta, de AOSIS a OPEC, pode ter uma posição conjunta sobre clima). Os países partiram para consultas informais, mas não conseguiram chegar em um consenso, provocando a suspensão da sessão para hoje.

A AOSIS  só estava pedindo que um relatório fosse elaborado, não que se adotasse um acordo para limitar o aumento da temperatura em 1,5 grau centígrado.

Hoje, a sessão foi retomada com a Venezuela falando que apoiava a elaboração do paper (lógico, sabia que seus colegas da OPEP iam bloquear de qualquer jeito). Em seguida, a Arábia Saudita falou que não ia adiantar nada continuar discutindo esse assunto porque não iam mudar de posição e propôs que essas discussões sejam retomadas em Cancún, durante a CoP-16, quando o SBSTA também se reúne. Barbados, pela AOSIS, perguntou por onde anda a solidariedade e fraternidade entre os países em desenvolvimento e disse que as negociações não são um jogo e a Bolívia perguntou como é possível que não sejam capazes nem mesmo de entrarem em consenso para elaborar um relatório.

Também gostaria de ver essas perguntas respondidas, bem como essa aqui: o que vai fazer os países da OPEP mudarem de posição daqui a seis meses?

No fim da tarde, Kuwait, Omã, Arábia Saudita e o Qatar ganharam o prêmio Fóssil do Dia, dado para os países que menos contribuíram para o avanço das negociações hoje.

Posso ser linchada pelo que vou falar agora, mas vou falar do mesmo jeito, para criar polêmica. É muito fácil e simplista enxergar mocinhos e vilões nesse debate. Constantemente demonizamos os países cujas economias dependem da exploração de petróleo, sem parar para pensar nas consequências que a tal transição para uma economia de baixo carbono vai trazer para esses países. A maior parte da economia desses países gira em torno disso, portanto, é lógico e completamente legítimo que eles ocupem seus espaços em um fórum que está debatendo justamente um corte radical no uso de petróleo no mundo. O que não é aceitável, do meu ponto de vista, é que a Arábia Saudita (e outros países) se comporte como vítima das mudanças climáticas, sabote as negociações, como fez hoje, e não aceite sair do status quo, aceitando explorar outras fontes de recursos para sua economia. Isso é absurdo! Chegaram até a dizer, no sábado, que os combustíveis fósseis são vítimas das mudanças climáticas e constantemente manifestam que querem fazer parte dos fundos de adaptação porque, de acordo com eles, vão ter que se adaptar às mudanças climáticas tanto quanto os pequenos países insulares, países menos desenvolvidos…

A tal da vontade política…

Posted on 09. Jun, 2010 by Juliana Russar in Brazil | View Comments

Estou desde o começo da tarde pensando em como começar esse post porque a verdade é que não tem nada de novo para contar e eu também não quero escrever mais um texto reclamando sobre isso. É muito frustrante ver a falta de vontade política dos líderes mundiais (principalmente dos países desenvolvidos) para que as negociações de clima avancem e, cada vez que viajo para acompanhar esse processo e não vejo nada de novo acontecendo, fico a pensar o que estou fazendo aqui, se vale a pena pegar voos longos e desconfortáveis, lutar contra o jetlag, dormir pouco, comer besteira, ficar longe das pessoas queridas e da minha bicicleta…

Apesar disso tudo me deixar muito triste e chateada, esse é o mundo real, infelizmente, e se quero mudar alguma coisa nele, vou continuar acompanhando as negociações e escrevendo para contar e denunciar, quando necessário, tudo o que acho lamentável. Faz quase dois anos (desde a CoP-14, em Poznan, Polônia, dezembro de 2008) que um texto de negociação é prometido. Cá estamos nós, em junho de 2010, e é muito provável que não haverá texto de negociação até sexta-feira, último dia de reunião em Bonn. E aí, faltarão apenas 9 dias de negociação até Cancún (CoP-16). Até um dia seria suficiente, se não faltasse vontade política.

"Ó Oráculo, diga-me quando teremos um acordo climático" (Photo: Florent Baarsch)

"Ó Oráculo, diga-me quando teremos um acordo climático" (Photo: Florent Baarsch)

No meu primeiro dia aqui, li um press release que foi espalhado de propósito por todo o hotel
Maritim, onde acontece a reunião, que achei muito interessante e criativo. Ele é assinado por uma organização chamada Moonsoon International. A seguir, a íntegra do release traduzido por mim para o português. Vale a pena ler e refletir!

MoonSoon International

Press release

17 de dezembro de 2128

CoP-134 lunar chega em um acordo para a evacuação global

O acordo de evacuação global fechado hoje durante a dramática sessão plenária de encerramento da CoP134 significa um grande impulso aos esforços interplanetários de reforma da carta das Nações Reunidas, diz a Moonsoon Internacional. O grupo de justiça cósmica comemorou a decisão histórica de formar um novo Conselho de Segurança que reúne territórios soberanos no planeta Terra e na Lua.

“Finalmente há esperança para os 3,7 bilhões de habitantes restantes do que deveria agora ser chamado de planeta muito azul, considerando todas as enchentes dos últimos anos”, disse Kirk de Boer, estrategista de resgate em massa da Moonsoon Internacional. “Durante as próximas décadas, eles finalmente vão ser capazes de deixar suas ilhas no Oceano Pacifilâtico e morar na bacia de poeira do outro lado da Lua”.

O acordo no New-Kyoto Convention Center, em West Sinus Asperitatis na Região Equatorial Lunar foi negociado nas últimas horas da CoP134. Observadores da sociedade alienígena ovacionaram quando os negociadores finalmente aceitaram as recomendações do Painel Intergalático sobre Mudanças Cósmicas (IPCC) para evacuar todos os terráqueos restantes antes de seu quadragésimo aniversário e para voltar a repor o Fundo Global de Evacuação (GEF).

“Os novos chefes de Estado dos países da União Lunática devem cumprir as promessas feitas em financiamento de início rápido para a cooperação de tecnologia para as naves espaciais”, disse Nasa Figueres, uma ativista da Moonsoon International. “Eles têm que evitar a reserva dupla de assentos e garantir que todos os voos que estão amparados pelo novo acordo sejam realmente adicionais aos bilhetes subsidiados para  voos humanitários espaciais”.

A Moonsoon Internacional advertiu que os direitos dos povos originalmente indígenas no acordo de Evacuação Rápida de Habitações Degradadas (REDD) precisa ser reforçado. O grupo disse que os padrões sub0rbitais não foram suficientes para impedir a perigosa brecha que poderia permitir que pessoas irresponsáveis permanecessem na Terra.

“Com a temperatura média global 13,6 graus centígrados acima dos níveis pré-habitáveis, a evacuação completa da Terra é agora obrigatória e não opcional”, disse Ashe Spock , especialista em refrigeração urbana da Moonsoon International. “As falhas do sistema recente no Fridgistão do Norte e o colapso completo de New Freezeland ressaltam como os acordos de hoje são oportunos”.

O grupo ressaltou que os esforços de evacuação devem concentrar-se em humanos, já que todos os animais selvagens restantes na Terra no final do século passado já foram reproduzidos na Lua, graças à campanha Flora e Fauna 2.0 das Nações Reunidas. Segundo a edição de 2127 da Lista Vermelha, todas as 132 espécies de plantas, bem como as 67 espécies de animais já foram cultivados com sucesso.”

“Com a temperatura média global em 13,6 acima dos níveis pré-habitáveis, a evacuação completa da Terra é agora obrigatória e não opcional”, disse Spock Ashe, especialista em refrigeração urbana Moonsoon International. “As falhas do sistema recente no Norte Fridgistan eo colapso complet de Nova Freezeland oportuno destacar como os acordos de hoje são”.
O grupo ressaltou que os esforços de evacuação devem centrar-se em humanos, como todos os animais selvagens deixou na Terra no final do século passado já havia sido reproduzida na Lua, graças à campanha das Nações Reunited Flora e Fauna 2.0. Segundo a edição de 2127 da Lista Vermelha, todas as espécies de 132 plantas, bem como as 67 espécies de animais já foram cultivados com sucesso.”

Na verdade, esse release foi espalhado pelo WWF. Durante essa semana, estão pedindo para as pessoas preencherem uma cédula assinalando quando elas acham que vai sair um acordo climático. E você? Quando acha que isso vai acontecer?

The Adopter - Juliana Russar

Phillip Ireland

Juliana tem 24 anos. Ela mora em São Paulo e eu sempre foi apaixonada por política internacional e desenvolvimento. Não por acaso, ela se formou em Relações Internacionais e fez especialização em Meio Ambiente. Desde 2007, ela tem acompanhado as negociações internacionais sobre mudanças climáticas ... leia mais»


The adopted - Meet Figueiredo and the Brazilian Delegation

Juliana está seguindo Luiz Alberto Figueiredo Machado, diplomata, diretor do Departamento de Meio Ambiente e Temas Especiais do Ministério das Relações Exteriores. Figueiredo lidera uma equipe de negociadores do Ministério das Relações Exteriores, Ministério de Ciência e Tecnologia e Ministério do Meio Ambiente. leia mais»




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